segunda-feira, 24 de agosto de 2009

lendas urbanas

Lendas Urbanas
Elas contam casos horripilantes de crimes e perigos que rondam a nossa vida nas grandes cidades, e muitas passam de geração para geração. Saiba mais sobre essas histórias, e prepare-se para morrer de medo... ou de rir!

Por Rita Trevisan

Você já recebeu aquele e-mail sobre roubo de rins, que aconteceu com a conhecida de um amigo (que bebeu no copo de um estranho e acordou numa banheira cheia de gelo)? Ou ouviu, de uma prima mais velha, a história da loira do banheiro, fantasma que apareceu para a vizinha da amiga da avó do tio? Estes e muitos outros casos circulam na internet há anos, e muitos foram criados no tempo da sua mãe - se bobear, até da sua avó! - e ganharam popularidade no boca a boca. Cada um que conta - como naquela brincadeira de telefone-sem-fio - aumenta um pouquinho, e eles viram verdadeiros enredos de filme de terror. Se eles partiram de um acontecimento real, é difícil dizer. O que sabemos é que a maioria acaba tocando em temas polêmicos ou desconhecidos, ressaltando um perigo que pode ameaçar, de fato, aquele que lê. Por isso mesmo, no fundo, todas as lendas urbanas contêm alguma mensagem, tipo uma "moral da história", que varia conforme o caso. A credibilidade vem da referência a alguém conhecido. Repare: foi sempre um amigo, ou alguém de confiança, quem começou a passar a história adiante. Em todas as lendas, tem quem leve o papo a sério, e quem ache tudo uma bobagem. Ainda assim, vale a pena conhecer mais sobre esses contos um tanto quanto bizarros. Nem que seja pra se divertir com eles!

Palhaço da Kombi
Quem é: Um serial killer ou, em algumas versões, uma gangue de homens e mulheres envolvidos com sequestro e tráfico de crianças. Vestidos como palhaços e bailarinas, eles rodariam os grandes centros, numa Kombi branca, parando em praças e escolas de periferia, onde apresentariam seu show. No meio da bagunça, aproveitariam para raptar alguns pequenos espectadores indefesos. Alguns deles chegariam a roubar órgãos das crianças.

De onde tiraram isso: o palhaço assassino realmente existiu, e fez várias vítimas na década de 70, em Chicago, nos Estados Unidos. No porão de sua casa foram encontrados os restos mortais de 29 pessoas, com idade entre nove e 27 anos - o que prova que ele raptava não apenas criancinhas, mas também adolescentes e adultos. No ano de 1988, o fulano foi condenado à prisão perpétua, e sua história, publicada nos jornais do mundo inteiro. O que acontece é que, inspirando-se nessa reportagem, algum desocupado deve ter feito a sua própria versão brasileira do monstro, com direito a detalhes como a Kombi e os shows em portas de escola - que nunca existiram, na história original.

Pra morrer de medo: na região do ABC paulista, ainda no final da década de 80, jornais mais populares chegaram a publicar alguns casos de escolas que estariam sendo ameaçadas pela gangue do palhaço. Todo mundo conhecia alguém que conhecia outro alguém que tinha caído nas mãos do sequestrador. Mas o fato é que nunca se conseguiu entrevistar as vítimas, de fato. Por hora, o matador de criancinhas anda sumido... Mas vai saber, né?

Pra morrer de rir: Hello-ou! Quem é que precisa imitar palhaço para sequestrar crianças? Já não tá cheio de quadrilha que pega gente de todas as idades, em plena luz do dia, nos pontos mais movimentados do país? Tão simples quanto andar pra frente. Além disso, quem já viu uma trupe dessa, fazendo apresentações em plena praça pública ou na porta de um colégio?

Moral da história: Palhaço, amiga, só no circo. Se encontrar um espécime desse tipo, dando sopa em qualquer outro lugar onde não tenha lona, nem pipoqueiro: fuja! Pode ser um psicopata, um doido ou, simplesmente, um cara que conhece um monte de piadas sem graça, e que está cheio de vontade de encontrar sua primeira vítima. Em qualquer um dos casos, é ele quem vai se divertir, e não você.

Crie a sua própria lenda
Basta seguir estes três passos:

1. Invente uma pequena história, a partir de um assunto que está sendo bastante discutido no momento, apontando os riscos que uma pessoa comum corre ao ser exposta ao perigo, que você vai inventar. É o medo despertado em quem lê, o que garante que o caso se popularize.
2. Descreva alguns detalhes sórdidos na construção da sua narrativa.
3. Empreste veracidade ao fato por meio de testemunhas e provas. E não se esqueça de dizer que aconteceu com um amigo, ou com alguém de sua confiança, combinado?

O roubo dos rins

Como é: Um golpe aplicado em garotas baladeiras. Ao sair para curtir, à noite, elas podem se deparar com um garoto lindo e envolvente - que, na verdade, faz parte de uma quadrilha de venda ilícita de órgãos para pessoas que estão na fila do transplante. Em um bar, ele joga um xaveco na vítima, faz com que ela tome muitas doses de bebida e por fim a leva, totalmente embriagada, para o apartamento que diz ser dele. No dia seguinte, a garota acorda em uma banheira cheia de gelo e, então, ainda tonta pelo efeito da droga, encontra ao lado da banheira um bilhete que diz: "Ligue rápido para o hospital, ou vai morrer". Ela percebe dois cortes em suas costas, na altura dos rins. Pois é: seus órgãos foram roubados!

De onde tiraram isso: Ninguém arrisca dizer quem foi o primeiro a contar essa história. Tudo o que sabemos é que ela foi uma das primeiras lendas urbanas a se espalhar com a popularização da internet, nos anos 90. No início, os e-mails diziam que o tal golpe era aplicado apenas em turistas, ou em pessoas que viajavam a negócios para o Brasil. Com o tempo, bastava frequentar os bares das grandes cidades para se tornar uma vítima em potencial.

Pra morrer de medo: Uma CPI instaurada em 2004, em Pernambuco, resultou na condenação de uma quadrilha envolvida com o tráfico de órgãos. Em dois anos, essa galera movimentou mais de quatro milhões de dólares! Ou seja, rins e afins são realmente uma mercadoria de grande valor no mercado negro.

Pra morrer de rir: Se arrancassem os seus dois rins, a sangue frio, não iria adiantar muito ligar para o serviço de emergência, ao acordar. Aliás, o mais provável é que uma pessoa nessa situação não volte a acordar tão cedo. A incompatibilidade desta parte da história com a realidade mostra que o inventor - ou o responsável por enriquecer essa lenda urbana com detalhes sórdidos - fugiu da escola cedo... Provavelmente, para se dedicar a esse tipo de coisa, só um cara com uma mente muito desocupada!

Moral da história: "Não aceite bebida de estranhos" é um tipo de mantra que as mães costumam repetir às suas filhas sempre que elas vão entrar numa balada, desde que o mundo é mundo. O conselho não é, de todo, mau. Afinal, mesmo num refri aparentemente inofensivo podem estar boiando trilhões de bactérias e vírus nocivos e perigosos, vindos diretamente da boca de seu dono. Argh!

A morte pede carona

Como é: Esta lenda tem várias versões, que variam conforme a época e o lugar em que é contada. Tem quem diga que se trata de uma moça loira que pede carona nas estradas, até a cidade mais próxima. Após deixá-la em casa, o motorista solidário percebe que, ao sair, a fofa esqueceu um lenço ou cachecol no banco de trás. Ele, então, toca a campainha para devolver o pertence da passageira. Para sua surpresa (do motorista, claro!), encontra um casal idoso, que reconhece a peça e explica que a filha morreu há muitos anos, num acidente de carro, no exato local onde o homem parou para lhe dar carona. Em outras versões, a tal loira está na frente do cemitério quando chama um táxi. Ela pede para dar um rolê pela cidade e, no final do passeio, desce no mesmo local de origem. Na hora de pagar, manda o motorista ir buscar o dinheiro na casa dos pais dela. Ele pega o endereço e vai. Ao chegar, é atendido por um senhor que avisa, todo confuso, que a filha morreu há muito tempo. E ainda mostra uma foto dela na parede: "É aquela moça ali, não é?".

De onde tiraram isso: Ainda não se conseguiu registrar a possível identidade da passageira fantasmagórica. Algumas hipóteses, no entanto, podem ser levadas em conta: (1) seria a tal fantasma do cemitério uma simples Maria Gasolina, muito da viva, que em suas noites de tédio arranjava um jeito barato de ver o movimento da cidade? Vai ver os pais dela participavam da armação, só pra descontrair, no domingo à noite. Afinal, não tem nada de bom na TV nesse horário! (2) a caronista, também viva, teria dado um perdido nos pais, há muitos anos, e continuaria circulando de cidade em cidade, em busca de um caminhoneiro bonitão. O golpe do cachecol, então, apesar de batido, não teria funcionado até hoje para a pobre solteirona. Os brucutus, tapados de tudo, em vez de usarem o MSN da fofa para entrar em contato e avisar do "esquecimento" - dando brecha para um novo encontro - foram logo devolver a peça em casa, onde os pais dão a filha por desaparecida. Ô, dó!

Pra morrer de medo: As histórias de fantasmas em estradas e portas de cemitério se multiplicam ao longo dos anos, embora existam versões diferentes para cada fato. Aposto que você conhece pelo menos uma meia dúzia delas. E diz o ditado popular: "onde há fumaça, há fogo". Será?

Pra morrer de rir: Ninguém, em sã consciência, pararia o carro para ajudar uma desconhecida. Quer fazer caridade, amiga? Então, promova uma limpa no seu armário para ajudar os necessitados, vá visitar um asilo, comece a cumprimentar seus vizinhos todos os dias com um sorriso, mesmo às segundas-feiras, às seis da manhã. Já é um bom começo para deixar aflorar o seu lado Madre Teresa de Calcutá, sem arriscar a pele - e todo o resto!

Moral da história: Ao avistar qualquer loira pedindo carona, onde quer que seja, peça aos seus pais para mudarem de faixa. Ainda que não seja um fantasma, quem garante que ela não faz parte de uma terrível quadrilha de criminosos, especializados em sequestros relâmpagos? Eu, hein?!

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